A insularidade, longe de impor um constrangimento, revelou-se antes um catalisador para o desenvolvimento musical de notável vitalidade, nutrido pelo entusiasmo crescente da população madeirense pela prática artística em contexto coletivo. É precisamente neste panorama cultural que emerge o repertório reunido na presente Antologia de Música na Madeira – bandolim, um testemunho do talento criativo de músicos e compositores amadores que, com grande perícia, elegeram o bandolim como estandarte sonoro de inúmeras coletividades musicais e recreativas, algumas das quais perpetuam a sua atividade até aos nossos dias.
Neste acervo, existem duas vertentes estéticas principais: a popular e a erudita. Na primeira, sobressaem as contribuições de figuras como Gustavo Coelho, ilustre regente, de cuja pena saíram obras como Passo Ordinário, Dia de Reis e O 6 de Janeiro, esta última uma provável homenagem ao grupo homónimo dirigido por Carlos Santos. A ele se junta Ernesto Serrão, compositor e diretor de tunas, com a sua vibrante marcha Azinhaga Artística. Num registo distinto, a vertente erudita é magnificamente representada por Júlio Câmara, cujas composições, como Pensiero Libero para bandolim solo e Fados para bandolim e piano, denotam uma notável exigência técnica e uma inegável influência da escola italiana, possivelmente absorvida através do contacto com a obra de Carlo Munier. De igual modo, Fernando Clairouin, diretor do sexteto/septeto Passos de Freitas, explora uma expressividade de cariz romântico, seja na dramaticidade de Um Sonho, seja no apurado sentido harmónico do seu arranjo sobre a valsa Lamentos, do brasileiro Clemente Ferreira Júnior, onde desafia os intérpretes a um rigoroso domínio da articulação e do contraste dinâmico.





Avaliações
Ainda não existem avaliações.